O diário desportivo espanhol, Marca, entrevistou o seleccionador iraquiano de futebol, o brasileiro Jorvan Vieira, após este ter levado o Iraque a vencer a Taça da Ásia, disputada na Indonésia. O mundo do futebol acha-o brasileiro mas é português, segundo suas palavras, tem casa na Lousada mas também em Marrocos. Pode ler a entrevista no referido jornal aqui.
No entanto, para quem não percebe muito bem o castelhano, vou traduzi-la na íntegra.
Esta entrevista, conta-nos a dificuldades que ele sentiu em treinar uma selecção cujo o país está em guerra, guerra que por certo não nos foi, não nos é, nem nos será indiferente.
P- Como surgiu o convite para seleccionador do Iraque?
R- Foi um agente FIFA saudita que me contactou. Tinha dois convites, de um clube da Árabia Saudita e o outro era do Iraque, mas optei pelo Iraque pois nunca ttive hipóteses de competir numa competição como a taça da Ásia. Trabalhei muitos anos em países árabes, logo as pessoas já conheciam a minha forma de trabalhar.
Eu conhecia a qualidade dos jogadores iraquianos e tinha esperança em fazer algo de extraordinário. Tive uma agradável surpresa ao trabalhar com todo o grupo, que apesar de não serem profissionais, ajudaram-me muito na logística e foram muito competentes. Foram muito honestos comigo.
P- O que o levou a aceitar a oferta?
R- Desde o início senti que poderíamos conseguir alguma coisa muito importante com essa selecção mas por outro lado sabia que seria complicado superar as dificuldades, pelas quais, todos eles estavam a passar. Pensei em ganhar e acima de tudo seria uma experiência interessante e bonita.
P- Como foi planificar todo o trabalho?
R- Foi muito duro. O meu ajudante( Fernando Soares) e eu só dormimos 3 horas por dia quando começamos a trabalhar na Jordânia, só assim conseguimos o que conseguimos. Tudo foi fruto de um sério trabalho realizado, houve um grande impacto a nível mundial sobre o feito sobretudo tendo em conta a forma, com quem e em que condições tudo foi conseguido.
P- Quando aceitou o cargo, não pensou nos riscos que poderia correr?
R- Sinceramente não, só tinha em mente que iria trabalhar 2 meses e meio. Tinha como objectivo competir honradamente na taça da Ásia, só pensava na forma de mentalizar os meus jogadores.
Já a minha família ficou bastante preocupada, um dos meus filhos disse:" Pápá, não vás para a guerra!".
Mas eu sou um "cigano" do futebol, vou para os locais onde acho que devo ir.
P- Treinar em Bagdad era impossível, onde o faziam?
R- As concentrações era em Amman, nunca no Iraque devido aos acontecimentos que todos sabemos. Aliás, 13 jogadores jogavam fora do país, logo que terminaram as suas épocas fomos logo para a Jordânia. Iniciamos a 1ª fase de treinos a fim de participar num torneio de preparação, a taça dos países do oeste da Ásia, juntamente com o Irão, Jordânia, Líbano, Síria e Palestina. Depois fomos a Coreia jogar 2 amigáveis antes de viajar para a Indonésia.
P- Quando aceitou o cargo, quais foram os objectivos que lhe propuseram?
R- Confesso que quando entreguei o plano diário de trabalho aos jogadores, esse plano só terminava em Jacarta, no dia da final. Tinha a esperança de superar a melhor classificação do país na competição( 4º lugar em 1976).
P- A sua ideia era ganhar a competição?
R- Claro! Como qualquer treinador, penso sempre que posso ganhar e isso mesmo transmito sempre aos meus jogadores e não poderia ser diferente agora, apesar de saber que tinha o objectivo era muito difícil de alcançar.
P- O que disse aos jogadores por forma a eles pensar unicamente na competição, apesar dos problemas que se vivem no Iraque?
R- Foi muito duro. Disse-lhes que tudo que faríamos no campo seria um triunfo para as pessoas que diariamente sofriam com a violência no país, tinhámos que nos unir para que o povo também se unisse a volta do futebol.
P- Que impacto teve em vocês, a imagem daquela mãe que chorava a morte do seu filho, devido ao atentado durante os festejos por terem passado a final da taça?
R- Foi um momento muito doloroso para nós, muito difícil mesmo. Todos os integrantes da comitiva(33 pessoas) sofreram a perda de um familiar durante a guerra. As palavras daquela mulher afectou-nos muito, choramos desconsoladamente enquanto ouvíamos as palavras da mulher( ela tinha dito:"eu sei que o meu filho é um mártir mas o povo iraquiano está feliz"). Aquelas palavras foram muito fortes para nós. Depois disso, ficamos ainda mais unidos e na conferência de imprensa, apósa final, dedicamos o triunfo a essa mãe.
P- Durante o tempo em que esteve com os jogadores, o que sentiu sabendo que a poucos kms de distância, havia dezenas de mortos devido a guerra, podendo muitos serem familiares?
R- Muita gente pensa que os iraquianos são todos uns terroristas, mas a realidade não é essa!
São pessoas como nós, ainda por cima, estão a sofrer devido a uma guerra injusta.
A dor da guerra é muito difícil de erradicar pois deixa muitas marcas. Trabalhamos muito a parte moral dos jogadores para assim afasta-los o mais possível das notícias da guerra e a ansiedade que neles provocava.
P- Como é que os jogadores assimilavam as notícias dos atentados e as mortes que eram provocados pelos festejos, que eles mesmos tinham provocado?
R- Todos os dias os jogadores estavam ao telefone, a ver a TV e a ouvir a rádio a fim de saberem o que se passava com as suas famílias. Estavam sempre com o coração aos sobresaltos, todos os dias tinhámos que estar 10 ou 15 minutos com cada um deles para fazer com que esquecessem tudo o que se estava a passar.
Nunca esquecerei o momento em que estávamos no aeroporto de Bangkok, estávamos a fazer escala, e ao longe vi o nosso guarda-redes( Noor Sabri) a falar ao telefone, encolhido na cadeira e com uma cara de arrasar...não sabiámos o que tinha acontecido e os seus colegas foram saber o que se passava...tinham acabado de lhe dizer que tinham assasinado o cunhado nas ruas de Bagdad.
P- Antes disso, tinha acontecido algo do género a a alguém do seu grupo?
R- Quando assinei contrato, a federação iraquiana ofereceu-me os adjuntos, escolhidos por mim, segundo a recomendação deles.
Quando sai de casa, em Marrocos, para ir para Ammán, morreu na capital aquele que iria ser o meu fisioterapeuta. Morreu precisamente no momento em que estava a sair da agência de viagens, onde tinha recolhido o bilhete para se juntar a nós. Assim que soube, quis morrer naquele momento.
P- Certamente que mais pessoas sofreram na pele sequelas da guerra...!?
R- Claro! O nosso treinador de guarda-redes ficou sem nada por causa das milícias armadas de Bagdad. Ele vivia bem, antes da guerra, porque já tinha trabalhado em alguns países árabes e daí juntou um dinheiro para assim viver decentemente. Mas um dia assaltaram-no em casa e roubaram -lhe o carro. Não contentes com isso, regressaram dias depois e "convidaram-o" a sair de casa no prazo de dois dias e caso não o fizesse, matavam a sua família e a ele também.
Deixou tudo o que tinha e fugiu para o norte do país, Arbil, para salvar a vida.
P- Como é que fez para que convivessem, dentro do grupo, chiítas, sunitas e kurdos?
R- Para mim o importante era que convivessem entre eles por essa mesma razão!!! Por isso misturei-os nos quartos para assim pederem a timidez que tinham no início. Quando chegaram, eles nem se falavam, daí se pode ver o fosso enorme que existe entre eles. Basta dizer que não trocavam a bola entre eles, eles pontaveavam-se!!! Tive dois lesionados nos primeiros treinos e durante uma semana não treinaram!! Aí tive de impôr-me para demonstrar que tinham de me respeitar, algumas vezes foram fortemente chamados a atenção. Foi quando notaram que era difícil trabalhar comigo e que se não aceitassem as minhas condições então teriam de voltar para casa.
P- Nessas condições, como é que fazia para lhes retirar o melhor rendimento?
R- Foi muito difícil. Dediquei muito tempo a falar com eles com carinho mas também com dureza para assim fazerem crescer a mentalidade. Foi um trabalho diário muito duro mas finalmente fizemos com que eles compreendessem que unidos faríamos as coisas muito melhor do que desunidos. Eu dizia-lhes que tinhámos a oportunidade histórica de fazer sorrir o povo iraquiano, pudemos afectar positivamente a moral de cada um deles e assim puderam dar o melhor de si em campo e com os resultados que se viram. Devo dizer que nos surpreendemos com a bondade de cada um dos rapazes.
P- Como seleccionador, quando é que sentiu que poderiam lutar pelo título?
R- Depois do 2º jogo da taça, na vitória por 3-1 contra a Austrália. Ganhar aos australianos foi muito importante para eles dado que a Austrália é uma selecção repleta de profissionais e bem pagos e que eram um favoritos a vitória na taça. Constatei que a postura dos meus jogadores, dentro de campo, era de autênticos profissionais. Nesse dia demonstraram-me que podia contar com eles para qualquer feito.
P- E os prémios de jogo?
R- Alguns jogadores que jogam no estrangeiro, chegaram a dar 5100 euros para que o resto dos colegas tivessem prémio de jogo!
P- Descreva como foram as celebrações, quando terminou a final contra a Árabia Saudita.
R- Por palavras, é muito difícil. Dizer que foi bonito, é dizer pouco...no vestuário foi indiscritível...todos nos abraçamos, dançamos, não interessava quem estava com quem, todos juntos erámos Iraque!!! Foi maravilhoso. É muito difícil descrever o sentimos e o que vivemos lá.
P- Agora o seu nome é desejado por várias selecções, tem consciência disso?
R- Claro! Várias selecções e equipas já me contactaram. Só Deus sabe o que faz por cada um, se fez alguma coisa por mim, só tenho de esperar. Das ofertas que se falaram, tenho de descartar a da Coreia do Sul porque nunca me contactaram.
P- Tem algum país preferido para treinar?
R- Claro que não duvidaria treinar em Portugal ou Espanha porque têm uma boa organização a nível de clubes, logo seria bom.
P- Porque não foi para Bagdad festejar com os jogadores?
R- Eu ia para lá com eles mas antes de irmos, dois jogadores vieram dizer-me para não ir porque podia ser perigoso para mim, aí tive verdadeiramente medo da situação. Falei com o resto da comitiva mas nenhum deles me dizia "tranquiliza-te", aí duvidei mesmo...
Foi quando o conselheiro do 1º ministro veio ter comigo e me disse que tinha de ir a Bagdad de qualquer forma e a minha presença seria bemvinda. Eu respondi que iria se me deixassem ir para Ammán no mesmo dia e ele garantiu-me que sim. Mas quando faltavam 15 minutos para o embarque disse-me que a hipótese de ir para Ammán no mesmo dia não bem certa...podia ser possível ou não...perante a incerteza, decidi não viajar e fiquei num hotel de Ammán.
P- A selecção do Iraque está entre as candidatas para o prémio Prínicipe das Astúrias.
R- Até aqui foi a parte futebolística, agora chegou a vez dos políticos de aproveitar o mediatismo disto tudo! Se não o fazem agora, não o farão nunca mais...